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Pensar a partir do símbolo

9 AGO 2017

A formadora do Instituto CRIAP, Professora Doutora Maria Antónia Jardim, publicou um artigo que celebra os 150 anos do nascimento do poeta-filósofo Camilo Peçanha.

 

Fique a par desta inspiradora homenagem.

 

Em 1920 publica-se em Lisboa a Clepsidra, nas edições Lusitânea, de que era proprietária Ana de Castro Osório. E logo no primeiro grande artigo que da obra foi publicado na imprensa da capital, o seu autor, António Ferro, modernista, ligado ao grupo de Orpheu, dizia entusiasticamente que “…na sua arte não há palavras, há ideais…”. A epígrafe da Clepsidra é, afinal, o epitáfio da sua vida neste mundo, entre a saudade de um país perdido ( que é a Saudade de Futuro de Teixeira de Pascoaes) e o contraponto de uma pulsão de morte que acaba por se tornar integração no renascimento da Natureza: “Eu vi a luz em um país perdido”.

 

Nesta luz hostilina, neste símbolo, se confundem um particular e um universal, um existencial e um essencial; um ôntico e um ontológico. Toda a poesia de Camilo Pessanha é comunhão de vida, mas toda ela se apresenta como uma metavida.

Camilo Pessanha bebeu da índole chinesa o subentendido, a sugestão que está na índole da estética chinesa e coerente nas suas formas de expressão; o deixar à cogitação alheia o preenchimento de uma ideia que tanto tem que ver, neste caso, com um sentimento tão camoniano quanto platónico, quanto Pessanha e tão português: a saudade.

 

Imagem Blog: 20180115180128_46459-910x607.jpg

Melancolia (1894), E. Munch

 

Clepsidra é um relógio de água, associado a “Imagens que passais pela retina…”, à memória, ao pensamento espaço- tempo que flui, que não pára, pois certamente a água será símbolo do que não se pode parar; ela será sempre contínua coma Natureza, como o passar da existência humana. Mas Pessanha prefere ser o espectador dessa paisagem; impermeável a essa água, a essa passagem desse grande escultor, que é o Tempo, segundo M. Yourcenar e como se vê modelado in “Estátua”, de Pessanha.

No entanto, é ao mar que Camilo Pessanha liga as suas reminiscências de um mundo perdido, e isto o faz com profunda nostalgia, tudo em grandes imagens emblemáticas, que possuem uma dimensão iconográfico-épica (como por exemplo em “ San Gabiel”; “ Vénus”; “ Roteiro de vida”). A liberdade é tomar consciência desta pertença ao todo, viver com este todo. Pessanha é a própria água, é por sinédoque, a própria Clepsidra: água, renascimento, mas também resíduo que fica eterno dessa passagem da água- o sujeito lírico-épico da mesma Clepsidra, paradigma da condição humana.

Camilo Pessanha escolheu caminhar sobre os símbolos no mar da poesia e construir pontes entre oceanos de luz; escolhe sair do tempo-água clepsídrico, ilusório, para a uma união com a eternidade ( vide “ Depois das Bodas de ouro”). O que importa ao poeta é a conquista espiritual. 

Pessanha é um ponto de encontro, um guardador de tatuagens ( vide soneto “Tatuagens”) , das que trazemos de nascença e das que a vida vai gravando em nosso peito, e quem sabe, também na alma, a cores, sempre com o pincel na mão das palavras.

No colorido poético de Camilo Pessanha, as imagens visuais despertadas pelas cores são carregadas de analogias e intuições. A partir da sua condição humana, Camilo Pessanha exprime uma poética que adentra pelo íntimo mais recôndito do poeta e se faz universal, lírico-épico, por propiciar que nos reconheçamos em seus versos, reflectidos no espelho do tempo-água clepsídrico.

O poeta-filósofo compreendeu que a existência humana é ela própria uma iniciação e que compreendendo o símbolo, ele consegue viver o universal épico- trans- viver para além do tempo.

Clepsidra é o seu selo simbólico no envelope da nossa História.

(…)

Celebremos Camilo Pessanha com toda a alma e coração! 

 

Veja aqui o artigo original

Fonte: Wall Street International, 11 de julho 2017

Autoria: Maria Antónia Jardim

 

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Curso Intensivo em Biblioterapia, Cineterapia e Waking Dream Therapy

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