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Saúde Mental e Multidisciplinariedade

28 NOV 2017

As perturbações mentais estão a aumentar na Europa. Os estudos epidemiológicos mais recentes demonstram que os problemas de saúde mental se tornaram a principal causa de incapacidade e uma das principais causas de morbilidade. Em Portugal 23% da população sofre de uma patologia mental, ou seja, esta problemática afeta mais de um quinto da população portuguesa, sendo o primeiro país europeu no respeitante às perturbações ansiosas e o segundo com a maior taxa de prevalência de depressão.

 

O crescimento dos problemas de saúde mental traduz-se no aumento da utilização de recursos de saúde e consumo de medicamentos. Entre 2012 e 2016 observou-se um aumento em todos os grupos psicofarma­cológicos e 10% da população portuguesa consome diariamente ansiolíticos, sedativos e hipnóticos, o que nos torna o país com um dos mais elevados índices de consumo de benzodiazepinas.

Neste sentido a Joint Action on Mental Health and Well-being recomenda investir em novos programas de formação e orientação no desenvolvimento de estratégias eficazes na resolução dos problemas de saúde mental.

A causalidade das perturbações mentais, assim como os seus determinantes individuais, sociais, culturais, económicos, políticos e ambientais, levam à necessidade de diferentes profissionais atuarem com intervenções específicas e integradas neste contexto.

Há várias décadas, que a OMS recomenda a implementação de equipas multidisciplinares, para responder, de forma adequada, às necessidades das pessoas com problemas mentais. Refere que os problemas de saúde mental são de grande complexidade e por isso não podem ser explicados e tratados de forma abrangente, por um único profissional. O Plano Nacional de Saúde Mental faz o mesmo apelo e orienta também nesse sentido.

 

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Saber trabalhar em equipa multidisciplinar é aprender a ser especialista de um todo que se relaciona, que comunica, que integra, que complementa e que permite a compreensão do cidadão em todas as dimensões da sua vida.

Sabe-se que toda a especialização é necessária, pois só dessa forma é que evolui o saber, contudo também sabemos, que esta ganha mais corpo, quando comunicável com o plural, com o coletivo, com outros saberes explicativos.

As equipas multidisciplinares existem, estão no terreno, mas não em número suficiente, o que leva a intervenções sectoriais fragmentadas, sem serem beneficiados pelos momentos fecundos da interdisciplinaridade e de uma prestação de cuidados compreensiva, abrangente e integrada.

Existem evidências sobre a efetividade das intervenções psicológicas e psicossociais, na resolução dos problemas de saúde mental. Os estudos desenvolvidos apontam para a efetividade e potencial da intervenção psicológica e psicossocial, na melhoria do estado de saúde do cidadão, permitindo uma redução do recurso aos serviços de saúde, do consumo de medicamentos, uma maior adesão à terapêutica e facilitação da mudança de comportamentos.

As equipas multidisciplinares têm um papel central, no desenvolvimento desta importante dimensão do ser humano, a da capacitação e empowerment, que pode influenciar todo o curso da vida e promover maior bem-estar na vida dos cidadãos.


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Os tratamentos psicológicos e psicossociais promovem o desenvolvimento da autonomia e autodeterminação das pessoas, através de métodos, que potenciam e capacitam as pessoas, tornando-as atoras e responsáveis pela sua própria saúde.

É nossa opinião, que os tratamentos psicológicos psicossociais deveriam ser mais acessíveis à população, que deles necessita, instituindo-os como opções de tratamentos na primeira linha dos cuidados de saúde mental. Esta seria uma oportunidade de pôr em prática, de forma mais alargada, este tipo de intervenções, com benefícios claros para os cidadãos, dado a já comprovada evidência científica sobre custo-efetividade destas intervenções nos cuidados de saúde mental.

 

 

Filomena Santos, especialista em Psicologia Clinica e da Saúde

Coordenadora do Departamento de Psicologia do Adulto, Instituto CRIAP

Coordenadora Científica da Pós-Graduação em Intervenção Multidisciplinar em Saúde Mental

 

  

Referências bibliográficas

WHO (2005). Mental health policy, plans and programs. Geneva.

Caldas de Almeida JM & Xavier M (2009). Estudo Epi­demiológico Nacional de Saúde Mental: 1º relatório. Ed. Universidade Nova de Lisboa.

WHO-Europe (2011). WHO Mission to assess the progress of the mental health reforms in Portugal. Copenhagen.

OPP (2011),  Evidência científica sobre custo-efetividade de intervenções psicológicas em cuidados de saúde.

WHO (2013). WHO Global Mental Health Action Plan 2013-2020.

DGS (2014). Programa Nacional para a Saúde Mental. Saú­de Mental em Números.

Caldas de Almeida JM, Mateus P, Xavier M, Tomé G (2016). Joint Action on Mental Health and Wellbeing: Towards Community-Based and Socially Inclusive Mental Health Care, European Commission – Portugal Situation Analysis.

DGS  (2017). Programa nacional para a saúde mental.

 

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