Cuidados Oncológicos e Paliativos: Sintomas e Humanização

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Cuidados Oncológicos e Paliativos: Sintomas e Humanização

Conheça os cuidados oncológicos e paliativos, da gestão de sintomas à comunicação e ao apoio à família, com foco no conforto e na qualidade de vida.

A doença oncológica pode afetar todas as dimensões da vida. Além das alterações físicas, surgem frequentemente preocupações com os tratamentos, a autonomia, as relações familiares e o futuro. Responder a esta complexidade exige uma abordagem que articule conhecimento clínico, avaliação de sintomas, comunicação e apoio à pessoa e à família.
 
É neste contexto que os cuidados oncológicos e paliativos se complementam. O tratamento da doença e o alívio do sofrimento podem fazer parte do mesmo plano, com intervenções ajustadas às necessidades e aos objetivos de cada pessoa. Os cuidados paliativos podem ser integrados desde o diagnóstico e coexistir com tratamentos dirigidos ao cancro, incluindo aqueles que têm intenção curativa. 
Compreender esta articulação é fundamental para os profissionais que acompanham pessoas com doença oncológica ou em situação paliativa. Avaliar, comunicar e decidir são responsabilidades interligadas. A qualidade dos cuidados depende da atenção dedicada a cada uma delas.
 

Compreender a doença oncológica e o seu impacto

Conhecer a doença e os tratamentos

 
O cancro engloba doenças com características, evolução e possibilidades terapêuticas distintas. Compreender os fundamentos da doença oncológica permite enquadrar as necessidades da pessoa e reconhecer os desafios que podem surgir ao longo do acompanhamento.
Os tratamentos também colocam exigências específicas. Os seus efeitos na capacidade funcional, no conforto e nas rotinas devem ser considerados no plano de cuidados, com atenção às diferenças individuais.
Por isso, o acompanhamento exige mais do que conhecer o diagnóstico. Importa compreender como a doença e os tratamentos interferem com a vida daquela pessoa.
 

Reconhecer as necessidades da pessoa e da família

A experiência oncológica pode alterar papéis familiares, comprometer a atividade profissional e aumentar a necessidade de apoio nas tarefas quotidianas. As preocupações económicas e a reorganização da vida doméstica podem acrescentar dificuldades ao percurso clínico.
A avaliação deve dar espaço a estas questões. 
  • Quem acompanha a pessoa? 
  • Que recursos existem? 
  • Quais são as principais dificuldades sentidas em casa?
As respostas ajudam a identificar necessidades que, de outra forma, poderiam permanecer pouco visíveis. O apoio paliativo contempla precisamente esta atenção às dimensões físicas, emocionais, sociais e práticas da doença. 
 

Avaliar a pessoa de forma global

Relacionar sintomas, funcionalidade e bem-estar

 
Uma avaliação global considera os sintomas, mas também o seu significado na vida quotidiana. Duas pessoas com uma intensidade semelhante de dor podem enfrentar limitações e preocupações diferentes.
Saber se a pessoa consegue descansar, alimentar-se, deslocar-se ou manter atividades importantes acrescenta informação à avaliação clínica. Também permite definir prioridades de intervenção mais próximas das suas necessidades.
A escuta é indispensável. O que mais preocupa a equipa pode não coincidir com aquilo que mais sofrimento causa à pessoa.
 

Reavaliar ao longo do percurso

 
As necessidades não permanecem estáticas. Podem mudar com os tratamentos, a evolução da doença ou as condições de apoio familiar.
A reavaliação permite perceber se as intervenções produziram o efeito esperado, se surgiram novas dificuldades ou se os objetivos precisam de ser revistos. Um plano de cuidados deve acompanhar estas mudanças, com articulação entre os profissionais envolvidos.
 

Avaliar e gerir os sintomas em oncologia

 

Dor oncológica: compreender para intervir

 
A dor pode estar relacionada com a doença, os procedimentos ou os efeitos dos tratamentos. A sua avaliação deve considerar a localização, a intensidade, as características e a repercussão nas atividades diárias.
O relato da pessoa ocupa um lugar central. Uma dor que interrompe o sono ou impede a mobilidade exige atenção ao seu impacto concreto.
A intervenção pode combinar medidas farmacológicas e não farmacológicas, selecionadas de acordo com a avaliação clínica. A monitorização da resposta e dos efeitos adversos permite ajustar o plano terapêutico às necessidades identificadas. 
A frequência deste sintoma está documentada na investigação científica. Uma revisão sistemática e meta-análise de Snijders e colaboradores, publicada em 2023 na revista Cancers, estimou uma prevalência global de dor de 44,5% nas populações oncológicas estudadas. A prevalência de dor moderada a intensa foi de 30,6%. Estes resultados reforçam a importância da avaliação sistemática da dor e da monitorização da resposta às intervenções ao longo do percurso da doença.
 

Fadiga, náuseas, vómitos e outros sintomas

 
A fadiga relacionada com o cancro pode limitar significativamente a participação nas atividades habituais. A avaliação deve explorar fatores que possam contribuir para este sintoma, incluindo dor, alterações do sono, anemia ou efeitos dos tratamentos. 
Náuseas, vómitos, dispneia, alterações do sono e sintomas gastrointestinais também podem comprometer o conforto. A sua presença e intensidade variam, pelo que a resposta deve resultar de uma avaliação individualizada.
Reconhecer e comunicar alterações é essencial. Os efeitos adversos dos tratamentos devem ser discutidos com a equipa assistencial, para que possam ser avaliados e acompanhados. 
 

Integrar os cuidados paliativos precocemente

 

Prevenir e aliviar o sofrimento

 
Os cuidados paliativos procuram prevenir e aliviar o sofrimento através da identificação precoce, avaliação e tratamento de problemas físicos, psicossociais e espirituais. A pessoa e a família são o centro desta abordagem. 
A sua integração permite abordar necessidades que podem surgir em diferentes fases da doença. O momento de intervenção deve atender à situação clínica, à complexidade dos problemas e aos recursos necessários para lhes responder.
Esclarecer esta finalidade ajuda a ultrapassar a associação exclusiva dos cuidados paliativos aos últimos dias de vida.
Um ensaio clínico de referência, publicado por Temel e colaboradores em 2010 no The New England Journal of Medicine, avaliou 151 pessoas com cancro do pulmão de não pequenas células metastático. Às 12 semanas, o grupo que recebeu cuidados paliativos precoces, em conjunto com os cuidados oncológicos habituais, apresentou melhor qualidade de vida e uma menor proporção de participantes com sintomas depressivos: 16%, face a 38% no grupo com cuidados oncológicos habituais. O estudo demonstrou benefícios nesta população específica e contribuiu para sustentar a integração precoce da abordagem paliativa em oncologia.
 

Promover conforto e qualidade de vida

 
A qualidade de vida tem uma dimensão pessoal. Para alguém, a prioridade pode ser controlar a dor; para outra pessoa, manter a lucidez, descansar melhor ou conseguir participar numa atividade familiar.
Conhecer estas prioridades orienta o acompanhamento. Também ajuda a compreender que o conforto envolve aspetos físicos, emocionais e relacionais, cuja importância pode mudar ao longo do tempo.
A investigação também permite avaliar os resultados para além de um único estudo. Uma revisão sistemática e meta-análise de Kavalieratos e colaboradores, publicada na JAMA em 2016, reuniu 43 ensaios clínicos aleatorizados, com 12 731 pessoas com doenças que limitam a vida. A análise global encontrou benefícios na qualidade de vida e na carga de sintomas. Contudo, quando foram considerados apenas os estudos com baixo risco de viés, o benefício na qualidade de vida foi menor e o resultado relativo à carga de sintomas deixou de ser estatisticamente significativo. Esta distinção permite reconhecer os benefícios da abordagem paliativa sem sobrestimar a evidência disponível.
 

Comunicação em cuidados paliativos e oncologia

 

Transmitir informação difícil com clareza e sensibilidade

 
A comunicação de informação difícil exige preparação e atenção ao contexto. Importa perceber o que a pessoa já sabe, o que deseja conhecer e quais são as suas principais preocupações.
A linguagem deve ser compreensível. As pausas permitem assimilar a informação e colocar perguntas, enquanto a verificação da compreensão ajuda a esclarecer interpretações incorretas.
As orientações da American Society of Clinical Oncology salientam a necessidade de adaptar a comunicação e de reconhecer as emoções, para que a pessoa se sinta ouvida e apoiada. 
A comunicação estruturada sobre a doença grave também foi avaliada em investigação clínica. Num ensaio aleatorizado por grupos, publicado por Bernacki e colaboradores em 2019 na JAMA Internal Medicine, participaram 278 pessoas com cancro avançado. Às 14 semanas, o grupo abrangido pelo programa de comunicação apresentou uma menor proporção de participantes com sintomas moderados a graves de ansiedade, 5,0% face a 10,2%, e de depressão, 10,6% face a 20,8%, em comparação com o grupo de controlo. Estes resultados corresponderam a objetivos secundários do estudo; não foram demonstradas melhorias nos objetivos principais de concordância dos cuidados com as preferências da pessoa e de serenidade no fim de vida.
 

Acolher emoções e sofrimento

 
Medo, tristeza, ansiedade e vulnerabilidade podem fazer parte da experiência de doença. A forma como se manifestam varia entre pessoas e momentos.
A escuta deve permitir expressar estas emoções sem impor uma atitude de otimismo ou uma forma específica de lidar com a situação. Quando o sofrimento interfere com o funcionamento quotidiano ou assume maior intensidade, merece avaliação e eventual apoio especializado. 
 

Apoiar decisões e planear os cuidados

 

Tomada de decisão partilhada

 
A tomada de decisão partilhada articula a informação clínica com os valores, as preferências e os objetivos da pessoa.
Esta participação exige compreender as opções disponíveis, os benefícios esperados e os possíveis encargos das intervenções. Também requer espaço para dúvidas e para a expressão de prioridades.
Em doença avançada, estas conversas ajudam a construir uma compreensão comum sobre o percurso e a adequação dos cuidados. 
 

Planeamento antecipado e dignidade

 
O planeamento antecipado de cuidados permite conversar sobre preferências para situações futuras, antes de uma eventual perda da capacidade de participação nas decisões.
Estas conversas devem respeitar a disponibilidade da pessoa e manter abertura à revisão. As prioridades podem alterar-se.
A reflexão ética acompanha todo o processo: considerar benefícios e riscos, respeitar a autonomia e procurar cuidados proporcionais à situação clínica e aos objetivos identificados.
 

Acompanhar a família, os cuidadores e o luto

 

Reconhecer e apoiar quem cuida

 
Os cuidadores podem assumir tarefas de apoio pessoal, acompanhamento a consultas e organização das rotinas. A exigência destas responsabilidades pode aumentar ao longo da doença. 
É necessário avaliar a sua capacidade, disponibilidade e necessidade de orientação. Saber o que fazer, a quem recorrer e que apoio existe pode ajudar a enfrentar dificuldades práticas.
O cuidador também precisa de ser escutado. A preocupação, o cansaço e a conciliação com outras responsabilidades merecem atenção no plano de acompanhamento.
No ensaio clínico ENABLE III, publicado por Dionne-Odom e colaboradores em 2015 no Journal of Clinical Oncology, 122 cuidadores familiares de pessoas com cancro avançado receberam uma intervenção estruturada de apoio por telefone, iniciada precocemente ou três meses mais tarde. Aos três meses, os cuidadores do grupo de intervenção precoce apresentaram pontuações inferiores de sintomas depressivos. Nesse momento, não foram observadas diferenças significativas entre os grupos na qualidade de vida ou na sobrecarga, o que reforça a necessidade de avaliar separadamente as várias dimensões da experiência de cuidar.
 

Apoio na fase avançada, no fim de vida e após a morte

 
Na fase avançada e no fim de vida, o controlo de sintomas, o conforto e a comunicação com a família mantêm um papel central. A adequação dos cuidados deve considerar a evolução clínica e os objetivos da pessoa.
O apoio pode prolongar-se após a morte, através do acompanhamento no luto e da identificação de necessidades adicionais. Esta continuidade integra a abordagem paliativa e deve respeitar o contexto de cada família. 
 

A Importância da Formação Especializada

 
A evidência apresentada reforça a relevância de uma abordagem que articule avaliação de sintomas, integração precoce dos cuidados paliativos, comunicação e apoio aos cuidadores. Aplicar estes conhecimentos exige atualização científica, reflexão ética e compreensão dos limites de cada intervenção.
A complexidade dos cuidados oncológicos e paliativos exige conhecimentos atualizados sobre a doença, avaliação e gestão de sintomas, comunicação, decisão partilhada e apoio à família. 
O Curso de Cuidados Oncológicos e Paliativos do Instituto CRIAP aborda estas dimensões através dos fundamentos dos cuidados oncológicos, da avaliação e gestão de sintomas, dos cuidados paliativos precoces e integrados e da humanização dos cuidados. 
O programa contempla ainda a decisão partilhada, o planeamento antecipado de cuidados, o apoio à família e o acompanhamento no luto.
Destina-se a médicos, enfermeiros, psicólogos, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, assistentes sociais, terapeutas e outros profissionais de saúde envolvidos nesta área, bem como a finalistas das áreas indicadas. 
Para quem procura aprofundar os temas desenvolvidos neste artigo, constitui uma oportunidade de formação orientada para os desafios do acompanhamento da pessoa com doença oncológica ou em situação paliativa. Consulte a página do curso e conheça a formação.