É cada vez mais comum o mal-estar que atravessa escolas, consultórios e famílias. As crianças e os adolescentes estão a chegar mais cedo à linguagem do cansaço, da ansiedade, do “não consigo”.
Ao mesmo tempo, nunca dispusemos de tanta ciência, tantos instrumentos clínicos e tantas vias de apoio. Este é o paradoxo do nosso tempo: maior consciência, maior pressão, maior oportunidade.
A questão que importa não é apenas se as novas gerações estão mais infelizes, mas como desenhamos respostas clínicas, pedagógicas e comunitárias robustas para lhes devolver alguma “paz” e “inocência” da idade.
Qual é o estado da saúde mental infantil e juvenil em Portugal e no Mundo?
A depressão, a ansiedade e as perturbações do comportamento estão entre as principais causas de incapacidade, e o suicídio figura entre as principais causas de morte entre os 15 e os 19 anos.
Metade de todas as condições de saúde mental começa por volta dos 14 anos, mas a maioria não é detetada nem tratada atempadamente.
Em Portugal, a mais recente reforma de saúde mental consolidou pilares legislativos e organizativos, incluindo equipas comunitárias, integração nos cuidados primários e hospitais gerais, com o objetivo de aproximar as respostas dos territórios e reduzir tempos de espera para a infância e adolescência.
No entanto, as assimetrias territoriais, a
literacia em saúde e a condição socioeconómica modulam o risco e a utilização dos serviços.
As novas gerações e a questão da “infelicidade”
As Gerações Z e Alpha crescem “sempre ligados” e este fenómeno acelera a exposição a comparações sociais, fluxo incessante de notícias e pressão performativa.
O cérebro adolescente, ainda em maturação executiva, é particularmente permeável a recompensas imediatas e a sinais sociais ambíguos. No fundo, trata-se de um desenvolvimento acelerado numa pista com mais obstáculos.
O papel das redes sociais, comparação social e sono
O uso intensivo noturno de ecrãs, a latência de sono encurtada e as interrupções micro-despertativas associam-se ao humor negativo e à irritabilidade. A par disso, temos a comparação social digital que vem amplificar vulnerabilidades pré-existentes.
Estratégias de
higiene do sono, “acordos digitais” familiares e literacia mediática são alavancas simples e eficazes que podem ajudar a controlar o problema.
Escola, pressão académica e incerteza
As escolas são hoje palco de ambições, mas também de muitas inseguranças. A incerteza climática e económica atua como stress de baixa intensidade e alta duração, com expressão somática e emocional. Mas um
ambiente escolar positivo, protetor, marcado pelo pertencimento, relação, previsibilidade, pode amortizar este ruído de fundo.
Doenças mentais mais comuns em idade pediátrica e juvenil
Entre as doenças mentais mais comuns nas crianças e jovens, destacam-se as seguintes:
Doenças Internalizantes e Externalizantes
As doenças internalizantes, como a
ansiedade e a depressão, apresentam uma sintomatologia mais silenciosa. Já as doenças externalizantes, como a PHDA e as perturbações de comportamento, tornam-se visíveis pela disrupção. A leitura clínica exige olhar para dentro e para fora, e para o contexto.
Ansiedade e Depressão
Irritabilidade persistente, anedonia, sintomatologia somática, como cefaleias ou dores abdominais, “fuga” ou “evitamento” escolar e alterações do sono são alguns marcadores precoces.
PHDA, Autismo e Dificuldades de Aprendizagem
Em casos de perturbações do
espetro do autismo, a comunicação social e a flexibilidade cognitiva estão em foco.
Perturbações do comportamento alimentar e autorregulação emocional
E quais são as doenças mentais mais graves nesta fase?
Todas as doenças mentais infantis e juvenis devem ser obrigatoriamente encaradas com bastante seriedade.
No entanto, algumas doenças destacam-se por serem efetivamente graves, nomeadamente quando estão associados a
comportamentos autolesivos, risco de suicídio, psicoses ou uso de substâncias.
Perturbações do humor com risco de suicídio
Ideação suicida, desesperança, planos específicos e acesso a meios letais exigem uma avaliação e protocolos de triagem imediatos e planos de segurança.
Psicoses
Sintomas prodrómicos, como isolamento, queda abrupta no rendimento ou discurso idiossincrático, pedem uma referenciação rápida para psiquiatria infantil e juvenil e equipas comunitárias.
Perturbações por uso de substâncias
A adoção e dependência precoce de substâncias como álcool e canábis associa-se a um humor instável, a
ansiedade e a um baixo rendimento. Algumas intervenções motivacionais breves e o trabalho com a família aumentam a adesão e a desfechos mais positivos.
Enfermagem em Saúde Mental: o primeiro radar no terreno
Muitas vezes, é a Enfermagem de Saúde Mental que dão o primeiro alerta. Tratam-se de equipas de profissionais que antes de tudo, escutam, traduzem sinais discretos em hipóteses clínicas e criam pontes entre família, escola e serviços. São o primeiro radar porque estão perto, veem o quotidiano e estão capacitados para transformar impressões difusas em planos concretos.
Avaliação breve, vinculação terapêutica e educação para a saúde
Quando um jovem chega ao consultório escolar com “dores de barriga” frequentes, o enfermeiro especialista começa por um screening breve: sono, apetite, energia, humor, pensamentos de desvalorização, alterações de rotina. São perguntas simples, com método, pois o objetivo não é rotular, é mapear riscos e impactos funcionais.
No que diz respeito à
vinculação terapêutica, em linguagem clara e respeitosa, o enfermeiro valida a experiência (“o que estás a sentir faz sentido”), explica o que vai acontecer (“vamos perceber juntos o que está a pesar”) e combina passos pequenos (“hoje saímos com duas ideias práticas para tentar”). Esta aliança precoce diminui o evitamento, aumenta a adesão e abre espaço à família.
Na educação para a saúde, o foco é dar ferramentas práticas como:
• Explorar a higiene do sono com metas tangíveis: definir horário fixo, “zona sem ecrãs” 60 minutos antes de deitar, ritual curto de desaceleração.
• Ensinar a respiração diafragmática e um protocolo simples de regulação.
• Construir um plano de segurança quando existem sinais de risco: contactos-chave, sinais de alarme pessoais, locais de refúgio na escola.
Pequenas vitórias, como acordar mais descansado ou regressar a uma atividade que dava prazer, alimentam motivação e criam uma narrativa de capacidade, não de falha.
Intervenções em contexto escolar e comunitário
Na escola, por exemplo, o enfermeiro não trabalha sozinho. Ancora programas que já provaram utilidade, nomeadamente:
• Competências socioemocionais em sala: sessões curtas focadas em identificar emoções, reestruturar pensamentos automáticos e treinar resolução de problemas do quotidiano escolar.
• Grupos psicoeducativos para pais e cuidadores: encontros práticos sobre rotinas, comunicação assertiva e reforço positivo. Menos “deveres”, mais microacordos familiares que realmente cabem na semana.
• Intervenções breves one-to-one: contactos focados em objetivos (por exemplo, reduzir evitamento escolar), com tarefas entre sessões e monitorização do humor/ansiedade através de escalas simples.
Articulação com pediatria, MGF, psicologia e psiquiatria
A força da Enfermagem em Saúde Mental está também na engenharia de percurso.
Quando a triagem sinaliza complexidades, como depressão moderada ou grave, ideação suicida, suspeita de psicose ou perturbações alimentares, o enfermeiro especialista em saúde mental ativa vias de referenciação claras.
Inicia o contacto com médicos de família, pediatria para avaliação médica, psicologia para intervenção psicoterapêutica, e psiquiatria da infância e adolescência quando há critérios de gravidade.
O resultado desta
intervenção multidisciplinar é menos fragmentação. Consiste em fazer com que o jovem deixe de “cair entre cadeiras” e passe a ter um caminho legível, com pessoas identificadas em cada etapa.
Formação especializada para uma intervenção eficaz
Detetar cedo, intervir de perto e acompanhar melhor: esta é a tríade que transforma destinos. Mas para isso, é necessário capacitar os profissionais de saúde para que possam atuar da melhor forma.
Especialização em Enfermagem de Saúde Mental na Infância e Adolescência
Após a conclusão, estará mais apto para atuar em clínicas, hospitais, centros de saúde e comunidades terapêuticas, aplicando conhecimentos especializados em saúde mental infantil e juvenil.
Curso Enfermagem de Saúde Mental na Infância e Adolescência
Este curso destina-se a enfermeiros de cuidados gerais ou de outras áreas de especialidade que desejam compreender os principais conceitos relacionados com a saúde mental na infância e adolescência, reconhecer os sinais e as alterações precoces do bem-estar psicológico nestas faixas etárias e aplicar cuidados de enfermagem focados na promoção da saúde mental e na prevenção de perturbações psicológicas.
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