Saúde Mental na Infância e Adolescência: As novas gerações sentem-se mais infelizes?

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Saúde Mental na Infância e Adolescência: As novas gerações sentem-se mais infelizes?

Crianças e jovens cada vez mais irritados, mais ansiosos e deprimidos. Qual é o estado da saúde mental infantil e juvenil e o que podemos fazer para melhorar o panorama atual?

É cada vez mais comum o mal-estar que atravessa escolas, consultórios e famílias. As crianças e os adolescentes estão a chegar mais cedo à linguagem do cansaço, da ansiedade, do “não consigo”.
 
Ao mesmo tempo, nunca dispusemos de tanta ciência, tantos instrumentos clínicos e tantas vias de apoio. Este é o paradoxo do nosso tempo: maior consciência, maior pressão, maior oportunidade.
 
A questão que importa não é apenas se as novas gerações estão mais infelizes, mas como desenhamos respostas clínicas, pedagógicas e comunitárias robustas para lhes devolver alguma “paz” e “inocência” da idade.
 
 

Qual é o estado da saúde mental infantil e juvenil em Portugal e no Mundo?

 
Os dados são alarmantes: 1 em cada 7 adolescentes, entre os 10 e 19 anos, vive com uma perturbação mental, e estas condições representam cerca de 15% da carga global de doença nesse grupo etário.
 
A depressão, a ansiedade e as perturbações do comportamento estão entre as principais causas de incapacidade, e o suicídio figura entre as principais causas de morte entre os 15 e os 19 anos.
Metade de todas as condições de saúde mental começa por volta dos 14 anos, mas a maioria não é detetada nem tratada atempadamente.
 
Em Portugal, a mais recente reforma de saúde mental consolidou pilares legislativos e organizativos, incluindo equipas comunitárias, integração nos cuidados primários e hospitais gerais, com o objetivo de aproximar as respostas dos territórios e reduzir tempos de espera para a infância e adolescência.
 
No entanto, as assimetrias territoriais, a literacia em saúde e a condição socioeconómica modulam o risco e a utilização dos serviços.
 
 

As novas gerações e a questão da “infelicidade”

 
As Gerações Z e Alpha crescem “sempre ligados” e este fenómeno acelera a exposição a comparações sociais, fluxo incessante de notícias e pressão performativa.
O cérebro adolescente, ainda em maturação executiva, é particularmente permeável a recompensas imediatas e a sinais sociais ambíguos. No fundo, trata-se de um desenvolvimento acelerado numa pista com mais obstáculos.
 
 

O papel das redes sociais, comparação social e sono

 
O uso intensivo noturno de ecrãs, a latência de sono encurtada e as interrupções micro-despertativas associam-se ao humor negativo e à irritabilidade. A par disso, temos a comparação social digital que vem amplificar vulnerabilidades pré-existentes.
Estratégias de higiene do sono, “acordos digitais” familiares e literacia mediática são alavancas simples e eficazes que podem ajudar a controlar o problema.
 
 

Escola, pressão académica e incerteza

 
As escolas são hoje palco de ambições, mas também de muitas inseguranças. A incerteza climática e económica atua como stress de baixa intensidade e alta duração, com expressão somática e emocional. Mas um ambiente escolar positivo, protetor, marcado pelo pertencimento, relação, previsibilidade, pode amortizar este ruído de fundo.
 
 

Doenças mentais mais comuns em idade pediátrica e juvenil

 
Entre as doenças mentais mais comuns nas crianças e jovens, destacam-se as seguintes:
 
 

Doenças Internalizantes e Externalizantes

As doenças internalizantes, como a ansiedade e a depressão, apresentam uma sintomatologia mais silenciosa. Já as doenças externalizantes, como a PHDA e as perturbações de comportamento, tornam-se visíveis pela disrupção. A leitura clínica exige olhar para dentro e para fora, e para o contexto.
 
 
Ansiedade e Depressão
 
Irritabilidade persistente, anedonia, sintomatologia somática, como cefaleias ou dores abdominais, “fuga” ou “evitamento” escolar e alterações do sono são alguns marcadores precoces.
 
 
PHDA, Autismo e Dificuldades de Aprendizagem
 
A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), de uma forma geral, manifesta-se por desatenção, impulsividade e hiperatividade com impacto funcional.
Em casos de perturbações do espetro do autismo, a comunicação social e a flexibilidade cognitiva estão em foco. 
Já nas dificuldades específicas de aprendizagem, como a dislexia ou a discalculia, não devem ser encarados como “falta de esforço”, mas sim como sinais de alerta que pedem avaliação e adaptações pedagógicas.
 
 
Perturbações do comportamento alimentar e autorregulação emocional
 
Da restrição rígida aos episódios compulsivos, surgem algumas dinâmicas de controlo, culpa e vergonha associadas a perturbações do comportamento alimentar. As intervenções familiares, a reeducação nutricional e a terapia focada na regulação emocional são centrais.
 
 

E quais são as doenças mentais mais graves nesta fase?

 
Todas as doenças mentais infantis e juvenis devem ser obrigatoriamente encaradas com bastante seriedade.
No entanto, algumas doenças destacam-se por serem efetivamente graves, nomeadamente quando estão associados a comportamentos autolesivos, risco de suicídio, psicoses ou uso de substâncias.
 
 
Perturbações do humor com risco de suicídio
 
A nível global, o suicídio é a 3ª causa de morte mais comum entre adolescentes e jovens adultos, com idades entre os 15 e 29 anos.
Ideação suicida, desesperança, planos específicos e acesso a meios letais exigem uma avaliação e protocolos de triagem imediatos e planos de segurança.
 
 
Psicoses
 
Sintomas prodrómicos, como isolamento, queda abrupta no rendimento ou discurso idiossincrático, pedem uma referenciação rápida para psiquiatria infantil e juvenil e equipas comunitárias.
 
 
Perturbações por uso de substâncias
 
A adoção e dependência precoce de substâncias como álcool e canábis associa-se a um humor instável, a ansiedade e a um baixo rendimento. Algumas intervenções motivacionais breves e o trabalho com a família aumentam a adesão e a desfechos mais positivos.
 
 

Enfermagem em Saúde Mental: o primeiro radar no terreno

 
Muitas vezes, é a Enfermagem de Saúde Mental que dão o primeiro alerta. Tratam-se de equipas de profissionais que antes de tudo, escutam, traduzem sinais discretos em hipóteses clínicas e criam pontes entre família, escola e serviços. São o primeiro radar porque estão perto, veem o quotidiano e estão capacitados para transformar impressões difusas em planos concretos.
 
 
Avaliação breve, vinculação terapêutica e educação para a saúde
 
Quando um jovem chega ao consultório escolar com “dores de barriga” frequentes, o enfermeiro especialista começa por um screening breve: sono, apetite, energia, humor, pensamentos de desvalorização, alterações de rotina. São perguntas simples, com método, pois o objetivo não é rotular, é mapear riscos e impactos funcionais.
 
No que diz respeito à vinculação terapêutica, em linguagem clara e respeitosa, o enfermeiro valida a experiência (“o que estás a sentir faz sentido”), explica o que vai acontecer (“vamos perceber juntos o que está a pesar”) e combina passos pequenos (“hoje saímos com duas ideias práticas para tentar”). Esta aliança precoce diminui o evitamento, aumenta a adesão e abre espaço à família.
 
Na educação para a saúde, o foco é dar ferramentas práticas como:
 
• Explorar a higiene do sono com metas tangíveis: definir horário fixo, “zona sem ecrãs” 60 minutos antes de deitar, ritual curto de desaceleração.
• Ensinar a respiração diafragmática e um protocolo simples de regulação.
• Construir um plano de segurança quando existem sinais de risco: contactos-chave, sinais de alarme pessoais, locais de refúgio na escola.
 
Pequenas vitórias, como acordar mais descansado ou regressar a uma atividade que dava prazer, alimentam motivação e criam uma narrativa de capacidade, não de falha.
 
 
Intervenções em contexto escolar e comunitário
 
Na escola, por exemplo, o enfermeiro não trabalha sozinho. Ancora programas que já provaram utilidade, nomeadamente:
 
• Competências socioemocionais em sala: sessões curtas focadas em identificar emoções, reestruturar pensamentos automáticos e treinar resolução de problemas do quotidiano escolar.
• Grupos psicoeducativos para pais e cuidadores: encontros práticos sobre rotinas, comunicação assertiva e reforço positivo. Menos “deveres”, mais microacordos familiares que realmente cabem na semana.
• Intervenções breves one-to-one: contactos focados em objetivos (por exemplo, reduzir evitamento escolar), com tarefas entre sessões e monitorização do humor/ansiedade através de escalas simples.
 
 
Articulação com pediatria, MGF, psicologia e psiquiatria
 
A força da Enfermagem em Saúde Mental está também na engenharia de percurso. 
Quando a triagem sinaliza complexidades, como depressão moderada ou grave, ideação suicida, suspeita de psicose ou perturbações alimentares, o enfermeiro especialista em saúde mental ativa vias de referenciação claras.
Inicia o contacto com médicos de família, pediatria para avaliação médica, psicologia para intervenção psicoterapêutica, e psiquiatria da infância e adolescência quando há critérios de gravidade.
O resultado desta intervenção multidisciplinar é menos fragmentação. Consiste em fazer com que o jovem deixe de “cair entre cadeiras” e passe a ter um caminho legível, com pessoas identificadas em cada etapa.
 
 

Formação especializada para uma intervenção eficaz

 
Detetar cedo, intervir de perto e acompanhar melhor: esta é a tríade que transforma destinos. Mas para isso, é necessário capacitar os profissionais de saúde para que possam atuar da melhor forma.
 
No Instituto CRIAP encontra uma vasta oferta formativa na área de Enfermagem em Saúde Mental junto de crianças e jovens. Destacamos:
 
 
Especialização em Enfermagem de Saúde Mental na Infância e Adolescência
 
Na Especialização Avançada em Enfermagem em Saúde Mental na Infância e Adolescência vai aprender a identificar, intervir e tratar problemas de saúde mental em populações mais novas, em diversos contextos e com recurso a exemplos práticos.
Após a conclusão, estará mais apto para atuar em clínicas, hospitais, centros de saúde e comunidades terapêuticas, aplicando conhecimentos especializados em saúde mental infantil e juvenil.
 
 
Curso Enfermagem de Saúde Mental na Infância e Adolescência
 
Este curso destina-se a enfermeiros de cuidados gerais ou de outras áreas de especialidade que desejam compreender os principais conceitos relacionados com a saúde mental na infância e adolescência, reconhecer os sinais e as alterações precoces do bem-estar psicológico nestas faixas etárias e aplicar cuidados de enfermagem focados na promoção da saúde mental e na prevenção de perturbações psicológicas.
 
 
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